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Uma vida construída na venda de frutos e legumes, em França, para ajudar a família...
NN - Macedo de Cavaleiros, Quarta-feira, Junho 28, 2006

               

Uma criança à partida, uma pessoa desconhecida à chegada, hoje tem um relacionamento próximo com os autarcas da região, os presidentes das associações desportivas e culturais. Digamos que não passa despercebido...
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Um acidente mortal com o pai em 1975 obrigou José Dantas a deixar a sua aldeia de Moreira de Lima, região de Viana do Castelo, para ajudar a família. Tinha apenas dez anos quando a mãe ficou sozinha com oito filhos. Em 1979, aos catorze anos, José Dantas teve a oportunidade de emigrar para França, onde encontrou trabalho nas vinhas. Desta forma, podia assim ajudar a mãe a alimentar a sua irmã e os seus seis irmãos. “Foi terrível em Lisboa para conseguir encontrar um contrato na emigração. Tinha apenas catorze anos e precisava de alguém que ficasse responsável por mim em França”, salienta José Dantas.

NNEm Frontignan, pequena cidade perto de Montpellier, na região do Languedoc-Roussillon, o português começou a trabalhar nas propriedades que hoje são suas. A família detentora das terras na época partiu definitivamente para Portugal, e Dantas alugou a propriedade e tornou-se comerciante de frutas e legumes. Uma propriedade que não tinha mais que quatro metros quadrados e que não o satisfazia. “O preço que pagava pelos terrenos era verdadeiramente um exagero e foi então que comecei a pensar em compra-los”. Dois anos mais tarde (em 1994) faz um crédito ao banco, adquire os quatro hectares e aluga outros quarenta, todos eles na reagião e para o cultivo de frutas e legumes.

Na época, a sua irmã e um dos seus irmãos vieram para ajudar na exploração da propriedade que, sozinho, José Dantas já não conseguia ter mão. Hoje, a irmã tem mesmo uma tenda de venda de frutas e legumes no mercado de Séte, uma cidade portuária do sul de França.

E como chegou este fruticultor à rede de supermercados Carrefour? Simples! A junção da qualidade dos seus produtos com o conhecimento de Garcia Serge, responsável pelo Carrefour de Saint Jean de Védas, perto de Montpellier. “Uma pessoa que sabe reconhecer o seu trabalho bem feito”, adianta o português com um sorriso. No ano 2000, os seus produtos estão expostos em quase todos os supermercados e bancas da região... Frontignan, Sète e Montpellier.

NN José Dantas confessa que “de dia para dia o trabalho aumentava e cheguei a ter nas minhas propriedades setenta empregados, pelos quais o meu irmão era o responsável”.

Uma criança à partida, uma pessoa desconhecida à chegada, hoje tem um relacionamento próximo com os autarcas da região, os presidentes das associações desportivas e culturais. Digamos que não passa despercebido... “A amizade com Fabrice Rouanet, presidente do ASFAC, clube de futebol de Frontignan, fez com que acabasse por dar o patrocínio à equipa da terra. Mas, tudo por amizade e nunca pela publicidade que possa fazer à minha empresa”. E, desde quando conhece o presidente da autarquia de Frontignan? Desde que ajudava o pai do edil a fazer pipos de vinho! Na verdade, quando chegou, José Dantas aproveitava todos os tempos livres para ganhar um pouco mais de dinheiro. “Ao mesmo tempo que trabalhava nas vinhas, à noite e aos fins-de-semana, fazia barris com o pai do actual presidente de câmara”, acrescenta.

Foi destes conhecimentos que recebeu o convite para encabeçar a presidência da recém criada “Association Portugaise Culturelle Frontignanaise”. Uma associação que pretende, acima de tudo, criar um elo de ligação entre toda a comunidade de portugueses da região que é bastante significativa. Vão participar nos encontros do sul com Espanha e Itália, vão iniciar cursos de Português este verão, e até já estão geminados com Vizela, uma cidade perto de Guimarães.

Sobre Portugal... fica sempre a saudade... José Dantas vai pelo menos três vezes por ano à sua terra natal. Conhece Macedo, inclusive tem mesmo amigos no “Coração do Nordeste Transmontano”. Mas, “deixar definitivamente a França é difícil. Tenho aqui os meus amigos, a minha família e os meus conhecimentos. Mas cada vez que ouço falar português, aproximo-me, apresento-me e tento ajudar no que for preciso...”

Texto e fotos de Miguel Midões (jornalista, colaborador do NN, em Sète/Montpellier/França)



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